E a sociedade civil acorda…

paulo-carmona_edit_edParece que a crise é suficiente grave para que a dita sociedade civil se levante do seu torpor e imobilidade, das críticas de sofá e sinta a responsabilidade de ter um papel a desempenhar na resolução dos nossos graves problemas.

E eis que perante uma crise financeira profunda e algum descrédito das instituições principais do Estado, a sociedade civil começa a agitar-se. Não será coincidência a quantidade e qualidade das intervenções surgidas ultimamente, todas no sentido da reorganização de Portugal e seu desenvolvimento futuro até 2020.

Começando pelo Projecto Farol, uma interessante iniciativa com o apoio da Deloitte, e a sua convocatória aos diferentes sectores da vida nacional para a sua participação num debate alargado, na “defesa da necessidade de convicções fortes e de transformações profundas (…) e adopção de políticas com uma matriz temporal de realização a longo prazo.” As suas conclusões preliminares foram já apresentadas e estão abertas ao debate através do site www.projectofarol.com. Vale a pena por lá passar e dar o seu contributo.

De realçar também o documento sobre governação e regulação produzido pelo Fórum de Administradores de Empresas, com o apoio de personalidades de reconhecido mérito e reproduzido na íntegra na nossa edição de Maio. Todas as questões levantadas e sugestões nele apresentadas são demasiado pertinentes para serem arquivadas.

Não nos esqueçamos também do incisivo documento da CIP sobre “Mudar de Vida”, os apelos cada vez mais crescentes sobre as funções essenciais do Estado ou os pedidos para a elaboração de um orçamento base zero que o principal partido da oposição fez ressonância, entre muitos outros que também mereciam referência. Parece que a crise é suficiente grave para que a dita sociedade civil se levante do seu torpor e imobilidade, das críticas de sofá e sinta a responsabilidade de ter um papel a desempenhar na resolução dos nossos graves problemas. E porque talvez tudo isto é demasiado importante para ser deixado à classe politica em que, segundo as sondagens, cada vez os portugueses menos confiam.

Portugal tem excelentes profissionais na gestão, na ciência e em todas as áreas do Saber, mas que têm andado demasiado silenciosos e alheados da causa pública. Se acreditam que vivemos uma década perdida, com crescimentos medíocres em afastamento da média europeia, é irresponsável não se envolverem na definição do onde queremos estar em 2020.

E a reorganização do modelo económico é indissociável do papel instrumental do Estado na Economia, nas suas funções sociais, de segurança, justiça, educação e regulação cujos níveis de satisfação estarão talvez abaixo do necessário. Como combater o despesismo crescente dos últimos 20 anos quando sempre que “estamos de tanga” em vez de o tentar combater, vamos pela via mais fácil do aumentar os impostos?

Todos temos responsabilidades em explorar as potencialidades deste fantástico país, não escolhendo fugir emigrando ou enterrar a cabeça na areia e pretender que a culpa é sempre dos outros.

Por Paulo Carmona

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