Ethereum. A rival de Bitcoin

por Hugo Costa hugoncosta@gmail.com e Nuno Rolla nrolla@me.com

Uma das grandes ameaças ao domínio da Bitcoin é a Ethereum, cujo valor de mercado mais se aproxima ao da Bitcoin, e que se assume como a mais séria candidata a superá-la. Mas como surgiu esta moeda, qual o seu propósito, as maiores diferenças e novidades técnicas em relação à Bitcoin? Porque houve um crescimento exponencial dos seus preços, este ano, quais são os principais factores que contribuíram para este aumento de popularidade junto dos investidores? Siga as respostas, nas próximas quatro páginas.
Proposta em finais de 2013 por Vitalik Buterin, um programador e cryptoresearcher russo, a Ethereum tem um propósito que vai mais além do da Bitcoin, pois enquanto esta tem como base a descentralização de transacções monetárias, a Ethereum cria uma plataforma onde qualquer pessoa pode criar uma aplicação, correndo-a numa rede descentralizada.
Ou seja, exemplificando com uma aplicação de mensagens, em vez de as mensagens serem enviadas do nosso dispositivo para os servidores centrais do serviço, elas são propagadas pela rede (cujos computadores tanto podem ser servidores da Google como meros computadores pessoais) e daí chegam ao receptor da mensagem. Como na Bitcoin, os mineiros recebem, em troca do poder computacional, o token da plataforma (ou seja, a sua moeda): neste caso o ether, normalmente referido como Ethereum. Assim, a principal diferença entre ambas as moedas é que, ao contrário da Bitcoin, a Ethereum não tem como principal propósito ser um método de pagamento ou uma reserva de valor, mas sim uma plataforma para, por exemplo, criação de assets, crowdfunding, registo de domínios, serviços de notário, mercados preditivos (prediction markets), ou votações, entre outras finalidades.
A Ethereum faz uso de duas tecnologias que a Bitcoin não possui: distributed applications (aplicações distribuídas) e smart contracts (contratos inteligentes).
As distributed applications, normalmente referenciadas como DApps, são programas que, em vez de serem executados apenas num servidor, ou no lado do utilizador, são hospedados e executados na blockchain. Por agora, o maior uso deste software está a ser feito dando uso a smart contracts.
Os smart contracts são contratos auto-executáveis, com os termos de ambas as partes escritos em código, ficando hospedados e visíveis a qualquer pessoa através da blockchain e sem possibilidade de serem alterados. Estes contratos facilitam transacções e acordos sem a necessidade de uma autoridade central, sistema legal ou entidade externa. Não são ainda legalmente reconhecidos, e certos tipos de cláusulas, que existem em contratos actualmente, não podem ser escritas em código (um contrato entre uma loja e um fornecedor que tenha uma cláusula em caso de produtos defeituosos, por exemplo, não pode ser correctamente verificado através de código). O use case onde esta tecnologia tem sido colocada em prática está nos mercados financeiros, através da criação de produtos como acções e derivados.
Através do uso de smart contracts, qualquer pessoa pode criar o seu token (um vale de desconto, uma criptomoeda, entre outros). A diferença entre criar um token nesta plataforma e criar uma cópia da Bitcoin é que, aqui, não precisa de ter nenhum poder computacional a trabalhar especificamente para a nova moeda, não implicando também a criação de uma nova carteira. Como é construída na rede, os mineiros suportam tanto o ether, como estes tokens, e a mesma carteira onde está o ether suportará os novos tokens.
Isto permitiu que várias entidades, em vez de passarem pelo processo moroso de criar uma rede com vários utilizadores, avançassem agora com a simples criação de um token. Surge então a questão: se não é possível minerar estas novas moedas, como é que elas são distribuídas?
E a resposta são as Initial Coin Offering, normalmente referidas por ICO, e que correspondem ao processo de venda ao público de uma nova moeda, no qual a entidade vende parte das suas moedas para financiar o desenvolvimento da plataforma. Apesar de similares a um IPO (Initial Public Offering), as ICO não garantem a posse de parte da empresa que desenvolve a moeda, nem têm nenhuma regulação governamental. Tendo surgido em 2013, este novo método de venture capital funding tem tido uma enorme popularidade, com várias moedas a arrecadarem milhões de dólares em curtos espaços de tempo.
Actualmente, o recorde pertence à Bancor, uma versão criptográfica de uma moeda supranacional conceptualizada nos anos 40 por Keynes e Schumacher, que arrecadou 153 milhões de dólares através de mais de 10 mil investidores em apenas três horas. Também o BAT (Basic Attention Token), um novo ecossistema de publicidade que quer recompensar tanto utilizadores como divulgadores através do seu token, alcançou 36 milhões de dólares em menos de 30 segundos.
Esta especulação à volta das ICO está a fazer com que cada vez mais agentes económicos se tentem juntar às mesmas, não porque querem investir no projecto, mas por causa dos retornos astronómicos na ordem dos 10 000%. Entre eles estão fundos de investimento como o Pantera Capital, e até o empresário Mark Cuban, que outrora considerava a Bitcoin uma bolha especulativa.

Conseguirá a Ethereum chegar ao topo?
Mas com mais de 800 criptomoedas no mercado, será tudo isto suficiente para levar a Ethereum ao topo? O mercado tem vindo a admitir essa hipótese. Abaixo encontra-se um índice desenvolvido pelo CoinMarketCap, que apresenta a percentagem da capitalização de mercado total de que cada moeda dispõe. É possível ver que o sistema da Ethereum chegou a conquistar, em Junho, 33% do mercado. Em sentido inverso, o domínio da Bitcoin atingiu nessa altura mínimos de 37%.
A Ethereum começou a ser negociada em mercado em Agosto de 2015, com uma cotação em torno de 1 dólar dos EUA por unidade. Permaneceu nesses níveis até ao início de 2016, ano em que deu os primeiros sinais do que estaria para vir: no final de 2016 já negociava em torno dos 10 dólares, numa valorização de aproximadamente 1000%. No entanto, a grande ascensão da moeda regista-se desde Janeiro, e em meados de Junho fixou os seus máximos históricos nos 412 dólares. Isto traduz-se numa valorização de quase 4000% neste primeiro semestre de 2017, reflectindo um enorme aumento da sua popularidade.
Como sempre, um vasto conjunto de factores poderia ser apontado para justificar este comportamento, mas vale a pena destacar três.
O primeiro diz respeito às ICO, que se assumiram como um dos grandes sucessos da Ethereum, promovendo uma elevada procura pela moeda.
O segundo relaciona-se com a procura por parte dos investidores por uma alternativa à Bitcoin, nomeadamente devido aos seus problemas de escalabilidade (a rede deixou de ter capacidade para suportar o aumento do volume de transacções, levando a demoras na sua execução e a um aumento das taxas cobradas). O potencial da blockchain em que assenta a Ethereum permitiu que esta se assumisse como a alternativa mais procurada.
Finalmente, o terceiro factor está ligado à entrada de novos investidores no mundo das criptomoedas, na maioria dos casos sem terem grandes conhecimentos ou até interesse sobre o mesmo. Sentindo que “perderam o barco” com a Bitcoin, quando esta cotava a preços muito inferiores aos registados actualmente, procuram uma oportunidade de investimento semelhante e, impressionados pela valorização da Ethereum, investem nela apenas pelo “medo de ficar de fora”.

Boom das ICO valoriza Ethereum
Vale a pena analisar cada um destes três factores e perceber como, estando na base da valorização da Ethereum até Junho, podem estar também a contribuir para a correcção que se tem dado a partir daí. É que, em meados de Julho, a moeda já negociava em torno dos 200 dólares, perdendo assim 50% do seu valor no espaço de apenas um mês.
A questão das ICO e sua popularidade assumiu, de facto, um papel crucial na forte valorização da Ethereum na primeira metade do ano. O sucesso e os retornos proporcionados aos investidores nestas operações foram tais que, mais uma vez, ninguém quis ficar longe delas. Isso gerou uma escalada do número e dimensão das ICO, que implicam quase sempre o recurso à Ethereum a quem nelas queira participar. Daí resultou não só um forte aumento da procura pela moeda, mas também uma redução da oferta (sendo utilizadas nestas operações, não são disponibilizadas ao mercado).
Contudo, nas últimas semanas houve uma certa diminuição da euforia em torno das ICO, com as operações de grande dimensão a escassearem, ajudando a diminuição da procura a explicar a redução dos preços. A este respeito, importa ainda salientar um outro risco: as empresas financiadas nestas operações não irão manter as suas Ethereum para sempre. Em muitos casos irão vendê-las de modo a sustentar o desenvolvimento dos projectos, significando isso uma maior pressão vendedora na moeda.
No que respeita à procura por uma alternativa à Bitcoin, esta esteve muito ligada às dúvidas que começaram a pairar sobre o seu futuro, devido ao facto de a comunidade tardar em arranjar uma solução para o problema de escalabilidade: developers e mineiros defendiam estratégias diferentes, e visto que, para uma solução ser posta em prática, tem de haver um consenso geral (acima de 90%), isto deu uma vantagem às altcoins.
De acordo com uma sondagem conduzida recentemente pelo site CoinDesk (um dos mais populares na área), apenas 49% dos inquiridos se mostravam optimistas com a Bitcoin, sendo que o problema de escalabilidade era uma das razões mais apontadas para a falta de confiança. Já relativamente à Ethereum, a percentagem ascendia aos 94%. A verdade é que, já nas últimas semanas, começou a despertar alguma atenção o facto de a Ethereum enfrentar também os seus próprios problemas a este nível. A blockchain desta moeda é mais complexa do que a da Bitcoin e à sua rede são exigidos ainda mais recursos.
Em Junho, quando o recorde de transacções em Ethereum foi registado (em grande medida devido ao boom das ICO), muitas demoraram a ser confirmadas e uma das maiores bolsas de negociação suspendeu temporariamente levantamentos devido a um congestionamento da rede, gerando alguma apreensão. Da mesma forma que esta questão conteve o entusiasmo em torno da Bitcoin, o mesmo pode acontecer com a Ethereum, se não provar ser capaz de suportar um aumento do volume de transacções.
Por fim, relativamente à entrada de novos investidores em busca de uma oportunidade de investimento semelhante à que a Bitcoin ofereceu a quem nela apostou desde início, estes são muitas vezes pouco (ou mal) informados sobre as criptomoedas, sobre a tecnologia por trás delas, e em muitos casos sobre o próprio acto de investir. Nesse sentido, são agentes de mercado geralmente menos preparados para enfrentar uma descida de preços, e por isso mais propensos a liquidar posições ao primeiro sinal de alerta.
Qualquer activo dominado por este tipo de investidores estará sempre sujeito a uma maior volatilidade e a oscilações mais significativas, o que poderá ajudar a explicar parte da dimensão da queda sofrida pela Ethereum nas últimas semanas.

O retorno inicial da Bitcoin não se repetirá
Independentemente da evolução recente dos preços, importa salientar uma diferença marcante entre a decisão de investir na Ethereum, há uns meses, e na Bitcoin, na sua fase inicial. Em 2009, quando a Bitcoin começou a ser transaccionada, o futuro das criptomoedas era totalmente desconhecido. Apenas uma minoria acreditava que seriam compreendidas por milhões de pessoas e que a sua adopção poderia ser global (talvez por isso fossem necessárias 10 mil bitcoins para comprar uma pizza).
Oito anos depois, as criptomoedas e, sobretudo, a tecnologia blockchain, em que assentam, já merecem um reconhecimento totalmente diferente. Continuamos sem certezas nesta área, mas, pela forma como estas moedas se têm imposto, muitas das dúvidas que existiam no início já não se verificam. Isto não significa que as altcoins não possam subir significativamente de valor, mas não será razoável esperar que os seus investidores sejam remunerados na mesma medida que os primeiros investidores de Bitcoin: o risco que em 2009 assumiram não será repetido com nenhuma outra criptomoeda, pelo que a expectativa de retorno não pode ser a mesma.

Artigo publicado na revista Risco n.º 6 de Outono de 2017.

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